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sábado, 26 de setembro de 2015

O percurso da vida...

    (Sob o olhar de um homem de TEATRO)
-Lá com seus botões
O homem de TEATRO
Rumina devaneios:

-Ó meu menestrezinho em chegada
Se concluída a tua gestação demorada
A natureza a ti te infrinja a abandonar
O aconchego quente do útero materno
E se isto a ti em nada te apraza...
Então eu te proponho
Veementemente
Que ainda no proscênio desta vida
Protestes gritando
E protestes aos berros!...

-Entretanto...
Se perceberes...logo que do parto
Nessa terra te derrames estrebuchando,
Que neste mundo agitado
Não há outra saída
Senão viver
E viver artisticamente
Então prova tua existência...gritando,
E gritando aos berros!...

-Mas se desde a tua concepção
Tão desejada
És tu tão ansiosamente esperado
Então vem depressa!... Vem logo!
Porquanto de curiosidades
Perco-me em ansiedades

-Mas se vieres agorinha mesmo
Se me mostrares o teu rosto
Ainda oculto,
Contar-te-ei um segredo
Ao pé do ouvido
Então olha só! O meu delírio
Cá tão somente entre nós
Outro não é senão o de ver-te
Atuar no dia a dia
Pelos incontáveis tablados desta vida
Verdinha verdinha
Fazendo reflorescerem
Em mim,
Tantas emoções escondidas

-Portanto...coragem!
Vem depressa! Vem a pés em chão!
Pois aqui um mundarel de gente
Espera-te...ansiosamente
E tem pressa á beça...ora!  

-Lá com seus botões,
O homem de TEATRO
Pensou ter ouvido
Sussurros abusados:

-Olha só aqui...
Seu teatrólogo impertinente!
Presta bem atenção!...
Se versátil será o meu ofício
De futuro menestrel,
Saiba que tanto mais ainda
O será o semblante
Inconstante e volúvel
Do meu rosto a chegar
Entretanto...se mesmo assim
Te dá gosto conhecê-lo...de imediato,
Então escolhas ai
Na ladainha...abaixo,
Aquele que mais do teu agrado seja:

-Um rosto dolorido...
-Um rosto tristonho,
-Um rosto espantado...
-Um rosto assustado,
-Um rosto empalamado...
-Um rosto faminto,
-Um rosto multimascarado
Como é devido
A um verdadeiro artista.
Ah! E quiçá quem sabe então
Este rosto ai tão versátil
Não seja aquele do teu maior agrado?!

-Lá com seus botões,
O homem de TEATRO
Sem economias,
Esbraveja intrépido: 

-Ah, seu desaforado menestreuzinho!
Presta atenção aqui, digo-te eu!
Se a ti eu te estimulei insistentemente
A perder a sagrada invisibilidade,
Foi tão somente porque tenho pressa
Em introduzir-te no profundo segredo
Da sublime arte de interpretar.
Portanto larga de ser besta
E apressa-te a interpretar
Com talento á beça,
Todos os personagens
Que te serão ofertados...
Pois se o tempo e a vida
Ligeiros se esvaem pra todos,
Eu ainda vivo pretendo ver-te
Interpretar e alçar voo ao sucesso
Antes que para mim
Se apaguem os holofotes,
Se cerrem as cortinas
E, de súbito, se me calem os aplausos
Que a mim tanto me aprazem... ora!      


Montes Claros (MG), -24/07/2012

RELMendes

terça-feira, 16 de junho de 2015

Soneto ao “Cuidador de Idoso”

                   (Apenas uma poecrônica!)


O conteúdo desse soneto, poema, crônica,
Ou sei lá o quê, eu o revelei a um companheiro
De caminhada, muito antes mesmo de
Rabiscá-lo em um papelzinho qualquer.
Esse meu amigo, muito curioso,
Logo perguntou-me:
- Mas, que história é essa
  De soneto de gratidão?!
Então disse-lhe alegremente:
 - Vem cá, que eu te conto!
Cá entre nós
A coisa é mais ou menos assim,
E pus-me  a declamar:

Cuidador, cuidador de idoso
Talvez sem você
A velhice não fosse...
Um momento tão belo da vida!...

Mais que um poema,
Isto é uma crônica, escrita
No afã de homenagear
Com imensa gratidão
A todos aqueles que ontem,
Hoje, e, por decerto, amanhã...
Dispor-se-ão a facilitar
A vida dos idosos.
Porquanto tamanho desvelo
Há que se cantar louvores de gratidão
A esses profissionais generosos.

Cuidador, cuidador de idoso
Talvez sem você
A velhice não fosse...
Um momento tão belo da vida!...
Este digno e misericordioso oficio,
De cuidador  de idoso,
Existe, desde que o mundo é mundo!
Só que, até a bem pouco tempo,
Quando ainda entre os familiares
Abundante afeto havia
Este ofício, de cuidador de idoso,
Cabia aos mais generosos da família
Que se encarregavam
De tomar conta de seus velhinhos.
Mas, atualmente,
A coisa já não é bem assim
Porque nos tempos atuais
Em que, agoniado,
Cada um só se empenha
Na busca do seu próprio sucesso,
E na de sua discutível felicidade,
Não há mais quem queira se dispor a cuidar
Daqueles que na família envelheceram.

Cuidador,” cuidador de idoso”!
Talvez sem você,
Da vida ainda a ser vivida,
A velhice se tornasse
A mais difícil etapa da vida
A ser vencida...

E eis que nessa fresta...
De lamentável abandono,
Desponta,  fora da família,
O “cuidador de idoso” profissional
Que se dispõe a lutar
Contra a “eutanásia cultural” dos idosos...

Cuidador, cuidador de idoso
Talvez sem você
A velhice não fosse...
Um momento tão belo da vida!...
O “cuidador de idoso” profissional
Esse extraordinário personagem
Dispõe-se agora a assumir esse oficio
A fim de auxiliar os idosos
A enfrentar, com galhardia,
Os muitos obstáculos
Que até então desconheciam.
Mas que daqui em diante...
(tenham por certo!)
Far-se-ão pontuais na travessia
Do dia a dia de qualquer idoso.

Ah, cuidador,  cuidador de idoso,
Traga consigo, também, seus sonhos...
Seu jeito de falar, sua alegria, sua esperança...
E seu imenso desejo de ajudar...
Então serás muito bem-vindo
E serás também, capaz de rezar juntos:
A saga da velhice
Que é feita de partilhas...
E de respeito às diferenças...

Cuidador, cuidador de idoso
Talvez sem você
A velhice não fosse...
Um momento tão belo da vida!...


Montes Claros (MG), 30-05-2012
RELMendes  

            

terça-feira, 9 de junho de 2015

E NÃO SER TRANSPARENTE, POR QUÊ?!


-Pra falar a verdade... verdadeira,
( Ui, que redundância!)
Por causa de meus pífios conhecimentos
( Pífios?... Ui, que palavrão!)
Eu não sei quase nada, nem de mim,
(Poetinha tão singularmente abusado),
Nem de passarinhos...
(Tão graciosamente, serelepes!),
Nem de pessoinhas...
- Ora tão graciosas,
- Ora tão metidas à besta,
Nem tampouco da vida,
Haja vista que ela...a vida, é uma matulinha
De surpreendentes momentos...

-Porquanto tudo isto, é que...na verdade,
Penso que todos nós:
- Eu, o poetinha ingênuo; - os passarinhos
Serelepes e as pessoinhas...melindrosas,
Talvez sejamos, apenas, uns corajosos
E habilidosíssimos,
Malabares dos senões que nos impõem os
surpreendentes “ Quid pro quo´s” da vida.
Ah! E esses tais ai, sempre nos espantam!
E tenho o dito!

Montes Claros- MG, 09-06-2015

RELMendes        

domingo, 31 de maio de 2015

Entre mim e a bela Sacramento (MG) d´outrora, teceram-se duradouros laços de bem querer.


A bela Sacramento- , de bem antigamente, ficava, a uma hora de Jardineira, da matuta Conquista, d´outrora. Sacramento, como Conquista, também, por ser uma cidadesinha qualquer no dizer de Carlos Drummond de Andrade, adormecia cedo e caminhava a passos lentos de tartarugas, em se tratando de desenvolvimento pujante... ara! 
Mas, a bela Sacramento- era uma cidadesinha limpa, toda calçadinha de paralelepípedo bem talhados, ela sempre se amanhecia de auroras- a iluminar suas largas avenidas e suas ruasinhas; ela sempre se amanhecia de bocejos juvenis a caminho da escola local, da qual todos os habitantes se orgulhavam, porque, em fim, era um ginásio, o que fazia a diferença entre ela e as demais cidadesinhas a seu entorno; ela sempre se amanhecia de burburinhos de gente laboriosa, hospitaleira, acolhedora e de coração lindo:
- Seu Labieno, Da Sara, Alicinha, Celia, Ercilha, Voza, Luis Fernando, José Alberto, Ana Flavia etc etc...

A bela Sacramento d´outrora, talvez até fosse uma cidadesinha qualquer, como tantas outras do então. 
Mas, o que importa é que a bela sacramento de outrora escreveu em mim lembranças de coisas e de pessoas que não pretendo esquecer “nem bem de vagarinho”: A bela igreja Matriz de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento e sua glamorosa pracinha, onde os enamorados se perdiam em olhares e suspiros apaixonados; - a pensão, onde vivi por três anos, espremida entre uma esquina comercial e a casa dos Valadares; -Dona Araci Pavanelli, a nossa inesquecível diretora; -Dona Corina, minha professora de português, a doce Mãe Corina do Lar espirita Eurípedes Barsanulfo; - Dona Dalila, a suave professorinha de desenho e pintura; a competentíssima dona Hilca, que em mim despertou o desejo de ser professor de história etc etc...
Por fim, só sei que sou eternamente grato a Sacramento, por tudo que lá vivi, por tudo que lá aprendei, por todas as amizades que lá construi. 

Montes Claros- MG, 30-05-2015
RELMendes

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Partilhar nossos talentos me parece uma boa.

Vejamos! 
Nesse mundão de meu Deus há pessoas e pessoas. Umas o transformam em oasis de esperança, porque são generosas, no caso Papa Francisco.  Outras o tornam um campo de batalha insuportável porque são o protótipo do egoísmo, porque se perdem em observar só seus próprios umbigos, ou seja, seus próprios interesses. 

Então, fiquemos atentos, porque se o teu contigo vai tudo bem e muito te satisfaz e os outros que se danem, não te condeno. Contudo, desculpe-me, admiro mais aqueles que estão atentos também ao bem estar dos outros.
Embora sejam raros, eles fazem a diferença, porque elevam consigo a humanidade inteira: Mahatma Gandhi- idealizador do Satyagraha  (princípio da não-agressão, forma não-violenta de protesto) como um meio de revolução; Mandela-  pai da  moderna nação sul-africana- , Martin Luther King - Tornou-se um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos- ,  Chico Xavier - é uma das personalidades mais admiradas e aclamadas no país e ressaltado principalmente por um forte altruísmo -  Betinho – apesar de hemofílico e muito debilitado pela AIDS, foi um sociólogo e ativista dos direitos humanos brasileiro que se dedicou até a morte ao projeto Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida - ;  Madre Teresa de Calcutá - Considerada, por alguns, a missionária do século XX, tornando-se conhecida ainda em vida pelo cognome de "Santa das sarjetas" - , irmã Dulce -  foi uma das mais importantes, influentes e notórias ativistas humanitárias do século XX. -, Dom Helder Câmara 
-  grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar no Brasil - , etc etc...

Ah! Sem pundonores algum, eu particularmente ouso dizer que cá quedo-me de encantamento por todos eles que com muita parresia fizeram do tecimento do bem estar da coletividade a meta precípua de suas vidas. Bom! A diferença entre estes  e aquel´outros se restringe simplesmente a uma única realidade: Esses mencionados foram generosos. 

Montes Claros- MG, 20-05-2015
RELMendes

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Pronto! Vou murmurar!


Uma parafernália burocrática infernal permeia
o cotidiano dos idosos. É preciso que
o idoso seja um “ expert” em “mahamudra”
e em “calistemia” para que possa suplantar
os inúmeros obstáculos burocráticos
e terem acesso aos tais benefícios aos
quais faz jus, segundo o ordenamento
jurídico do país. Tais como:
“ Estatuto do Idoso”; Código do
Consumidor etc... etc....
Pois é... não fora perverso o processo
para se obter os documentos que faz jus
o idoso, um portador de tais direitos,
até que seria hilário. Porque para
obtê-los, há que se realizar uma maratona
infindável pelas inúmeras repartições
públicas ( CRAS, INSS etc.. etc...),
a ponto de não se dispor o idoso a
concluir a tão anelada tarefa.
Poucos idosos conseguem obter
os documentos complementares
para poderem usufruir dos tão decantados
benefícios: Como então se dispor a
busca-los se o custo beneficio para
obte-los não corresponde às promessas
publicitárias? Talvez não seja tão absurdo
afirmar que tais benefícios se aproximam
muito de uma publicidade enganosa. 
Isto é uma vergonha!  

Montes Claros (MG), 20-04-2015
RELMendes     


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Ficar atento ao óbvio evita canalhices

Clarice Lispector já disse que “o óbvio é a verdade 
mais difícil de ser entendida”,concordo em gênero 
e numero com ela. 
Ora! Mas, o óbvio nos permeia a vida a cada instante do nosso cotidiano. Assim sendo, é preciso estarmos atentos ao óbvio.  
A prova da consistência dessa premissa da ilustre escritora é, a meu ver,  facilmente constatável também no trânsito. Sim, no trânsito também! Vejamos: 
- Ciclistas pelas calçadas prestes a atropelar transeuntes; esportistas fazendo caminhada e correndo nas ciclovias destinadas a ciclistas; pedestres com crianças atravessando ruas com o semáforo vermelho e  correndo o risco de serem atropelados; motociclistas, profissionais ou não, a disputar espaço mirrados em vias urbanas e grandes rodovias, serpenteiam, perigosamente ou imprudentemente,  entre veículos de pequeno, médio e grande porte até se abalroarem mortalmente; ônibus e carretas ultrapassando em alta velocidade por  “carrefours dangereux”   
( cruzamentos perigosos), e assim por diante etc etc etc...

Tudo isto poderia ser evitado caso tivéssemos um pouquinho de ética.

Mas o que seria ética em se tratando de respeito ao coletivo no transito?
Ora ! segundo o prof. Clóvis de Barros Filho, em seu livro, “ TODOS SOMOS CANALHAS”, nos esclarece que: “Ética é a vitoria do coletivo sobre as pretensões individuais.”  
Aprendeu gente?   

Ora!... Ora!... Ora!... Mas, quem não sabe que ciclovia é pra ciclista, calçada pra pedestre, e que sinal de transito é para ser respeitado, né não?!
Tudo isto me parece tão óbvio, tão transparente, tão ético e fácil de se compreender, né não?!
Mas o desvairismo do individualismo vigente como que nós subtrai a noção do bendito óbvio- repeito ao coletivo- e nos faz parceiros da indesejável morte e de tantos outras mazelas facilmente evitáveis.
Pois é!  A meu ver quem não se adapta ao óbvio das leis do transito, que dizem respeito ao nosso sagrado direito de ir e vir com segurança, deveria ir morar na Cornualha... ora bolas!

Montes Claros MG, 11-05-2015
RELMendes

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A “Serra da Piedade” e o noviço estrambelhado


(O exato momento em que eu recebia o hábito de noviço dominicano em BH.)


Vez por outra minha memória passeia lá pelas bandas da Serra da Piedade.
Isto porque por volta do primeiro semestre de 1961, eu e meus companheiros de noviciado fomos descansar lá pelas bandas da tal “Serra”, para nos aliviarmos um pouco das preções da vida conventual impostas pela Santa Regra Dominicana sobre o nosso cotidiano de frades principiantes.

Se bem me lembro, nos levantamos ainda de madrugada. Os sinos do convento badalaram efusivamente por volta das quatro horas da madrugada. Dirigimo-nos à capela; rezamos as matinas; tomamos um café substancial e entramos na velha “jardineira” que nos conduziria à tão decantada “Serra”.

A discrição monástica amainava a euforia que permeava  nossas almas ansiosas por um pouquinho de liberdade. Enfim, já  estávamos vivendo enclausurados há mais de quatro meses naquela santa casa de São Domingos em Belo Horizonte.

O “choffer”, como chamávamos o motorista à época, pos-se atentar  ligar a velha “Jardineira” que se negava, veementemente, a pegar.
Contudo, depois de algumas tentativas o motor deu sinal de vida. Pegou e pusemo-nos a estrada. A tal ‘Jardineira” andava tão devagar que imaginava comigo mesmo:
- Não seria melhor irmos a pé?
Mas mantive um semblante de paz como é de bom tom a um aprendiz de frade.

Duas ou três horas depois de uma viagem atribulada pelo desconforto da poeira e a lentidão de locomoção do nosso veiculo,nos deparamos na beira da estrada com três senhoras de semblante angelical que nos pediram carona. Eram três irmãzinhas de Jesus da congregação fundada por Charles de Fouceuld. Ficamos muito encantados com a essência da vocação dela:
- Viver a vida oculta de Nazaré.
Na realidade a época eu desconhecia essas ricas peculiaridades de cada uma das inúmeras maneiras de viver a vida religiosa na Igreja Católica.
Mas de repente, a “velha Jardineira” parou e as três freirinhas desceram e logo saltaram na boleia de um caminhão que transitava pela estrada e partiram, deixando-nos encantados.
Fiquei sabendo depois que antes de elas abraçarem a vida religiosa, uma era medica, a outra era engenheira e a terceira era advogada. Enfim, eram três mulheres de muito valor que se dispuseram a largar tudo para seguir Jesus com radicalidade.

Bom!
Alguns minutos depois estava-mos aos pés da “Serra”. Descemos da “Jardineira” e pusemo-nos a escala-la lentamente.
Pouco a pouco o cansaço e a fome se apoderaram de nós. Quanto mais subíamos, mais distante nos parecia o pico da “Serra”.
Eu mesmo já me perdia em murmúrios secretos. Pois um frade, mesmo que principiante, não deve reclamar de nada, nem tampouco deixar transparecer tristezas. Mas, embora contrariadíssimo e aborrecidíssimo, lá ia eu subindo, subindo rumo ao cume da “Serra” onde ansiava usufruir um pouco de maior intimidade com Deus.

Já se fazia crepúsculo quando chegamos ao topo da amada “Serra” e à frente da bela capela de Na Sra da Piedade. Então, nos desfizemos das cargas de mantimentos que trazíamos nos ombros. Gente, o vento assoviava estridente e gélido, era frio pra dá com pau! Imediatamente após a chegada, nos introduzimos no átrio da capelinha e nos posemos a cantar às Vésperas e as Completas, que são orações que concluem o dia de oração de qualquer frade. Logo em seguida nos lançamos, cada um em seu catre, sem ao menos nos lembrar que estávamos famintos.  

Meu Deus! Nunca um alvorecer fora, em nossas vidas, tão esperado. Porque nem o frio congelante, nem  a fome de lobo faminto, nem tampouco os abusados pernilongos nos deram um só instante para pregarmos as pestanas durante a noite inteirinha.
Portanto, mal soara a primeira badalada do sino da capelinha, saltamos dos triliches e sem lavar a cara ou fazermos a higiene bucal, no dirigimos, de imediato, à capelinha para cantarmos  as “Matinas”, dando  assim inicio aos primeiros louvores diários de um frade . logo em seguida fomos degustar a primeira alimentação do dia que nós mesmos tratamos de preparar: Um pãozinho amanhecido, umas bolachinhas daquela bem simplesinhas, um chazinho feito com água de bica e um cafezinho bem ralinho.

Após essas primeiras façanhas do dia, nos pusemos a meditar ao ar livre e a contempla as belezas da natureza que Deus criou.
Passada a fase do imenso encantamento, nos dividimos em equipes para dá encaminhamento as tarefas do dia. Coube a mim, em religião chamado frei. Boaventura, ao padre mestre ( frei Emammuel Maria Retumba), a frei Leandro, frei Guido e a frei João Evangelista  limparmos a velha capelinha muito empoeirada.
À medida em que a limpeza se procedia, descobri atrás do altar-mor um velho e lindo crucifixo jogado às traças. Chamei o padre mestre e  mostrei-lhe o belo crucifixo, dizendo lhe:
- Podíamos leva-lo para a nossa capelinha do noviciado. Então, ele disse-me:
-Para tanto você terá que pedir o crucifixo ao frei Rosário. Você tem coragem?
 Disse-lhe sorrindo:
-Tenho! Por que não.
Então, zombando de mim, disse-me:
-Então, não perca tempo, vá logo!
E lá fui eu todo serelepe rumo a ermida de frei Rosário.
Não me lembrara em momento algum de sua fama de bravo.
Ingenuamente, pus em sua bater à sua porta sob os olhares curiosos de meus companheiros de noviciado. De repente a porta se abriu e eu me encontrava face a face com uma figura carrancuda de dois metros de altura.
-Bom dia! Disse-lhe eu sorrindo.
-Bom dia! Respondeu-me aos berros.
- O senhor poderia dar-me este belo crucifixo para colocarmos na capelinha do noviciado.
Esbravejando respondeu-me:
- Você não tem o que fazer, coloque o crucifixo imediatamente onde você o achou.
Virou-se e bateu a porta em minha cara. Pra dizer a verdade em momento algum fiquei zangado com ele. Mas muito me aborreceu a gozação explicita dos outros frades. Coloquei o crucifixo onde achei e não toquei mais no assunto.

Por fim, completada nossa rápida estadia prevista na “Serra da Piedade”, arrumamos nossas tralhas e retornamos ao convento de origem para darmos prosseguimento à  nossa aprendizagem religiosa nos moldes da regra de São Domingos.
Passados uns três dias de nosso retorno ao convento, Pe. Mestre bateu à porta de minha cela, abriu-a e disse mim:
- Frei Boaventura, o Frei Rosário está lhe esperando lá na porta do noviciado.
Embora arredio, ou melhor, tremendo nas bases, respirei fundo e dirigi-me à porta do noviciado. Ao abri-la, muito encabulado, o cumprimentei com um discreto aceno de cabeça e um sorriso amarelo, e ele pois se a falar em alto e bom som:
-frei Boaventura, aquele crucifixo que você gostou não posso dá-lo porque não me pertence. Mas, trouxe este que acabei de ganhar porque penso que ficará muito bem na Capelinha de vocês. Boa tarde!
Gente, o presente era de veras belíssimo! Foi uma grande festa no noviciado.
Ah! Boquiabertos com esse inesperado arroubo de generosidade do nosso nobre ermitão turão, eu e meus companheiros de noviciado, alem de perdidos em espantos de alegria, apreendemos, profundamente, que também por trás de um homem grosseiro pode haver um ser generosíssimo.

Então, até a próxima crônicasinha da época desse ex-noviço estrambelhado.

Paz e bem!

Montes Claros (MG), 09-04-2015

RELMendes

sábado, 7 de março de 2015

Uma história verdadeira e enternecedora:

Conta-se que um psiquiatra que cuidou das crianças sobreviventes da 2°Guerra Mundial se apercebeu que elas sempre tinham um sono muito atribulado, apesar de bem alimentadas e muito bem cuidadas durante o dia. Então, pos-se o tal psiquiatra a pesquisar a causa de tal fenômeno. Após varias experiências empíricas, descobriu que a insegurança causada pela fome durante a terrível guerra, era a causa das noites tão atribuladas. Então, sempre à noite, antes que as tais criancinhas adormecessem, ele colocava em suas mãos um pão, não para se alimentarem a noite, mas para que tivessem a certeza de que teriam alimento no dia seguinte.
Elas passaram, destarte, a dormir serenamente.
Que beleza essa junção de competência com solidariedade, né não minha gente?!

Montes Claros (MG), 15-02-2015
RELMendes         

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Coisas que ainda me espanta

Há muitas senhorinhas gulosas por ai afora.
Desculpem-me os que ousam quebrar as regrinhas da etiqueta, mas um pouco de civilidade é fundamental para a boa convivência social.

Não raro por estas bandas de cá, como, também, pelas bandas de lá, quer em festinhas familiares de fundo de quintal, quer em festividades de alto nível, sempre nos depararmos com senhorinhas vips ou senhorinhas pobres, surrupiando pelas mesas das festas, sorrateira ou acintosamente, guloseimas saborosas para leva-las a seus domicílios, (verdadeiras Magnólia da novela império!).

Tal hábito, senão esdrúxulo, demonstra, no mínimo, uma infantilidade lamentável e reprovável.
Contudo, nesse fenômeno sócio- cultural, o que mais me abisma é que tanto aquelas ( as vips), quanto essas ( as pobres), têm plena consciência de que tal hábito não é louvável. Vez que umas criticam as outras em alto e bom som.
Em face dessa irônica narrativa, cá quedo-me eu, estarrecidíssimo !

Montes Claros (MG), 08-02-2015

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domingo, 25 de janeiro de 2015

Emborcando-me sobre hilárias lembranças da casa paterna!


Era uma casa muito engraçada. Faltava de tudo, mas sobrava algazarra e muita peraltice de seus inúmeros habitantes: filhos, netos, agregados e vários amigos, que nela se instalavam sem data para partir. Uma esculhambação generalizada se instalara sob o telhado que cobria o velho casebre de meu querido pai para torna-lhe os dias mais suportáveis, já que um AVC o debilitará, sem pena e sem dó!  Mas nessa casa muita engraçada, ocorria também, muita patifaria, porque nela havia muito cacique pra pouco índio.A época em que o AVC o acometera década de 80, eu morava em SAMPA, mas vez por outra, o seja, duas vezes por mês eu vinha visitar o meu querido velho, aquele cara meigo e violento que amou todas mulheres e morreu, entre gardênias e outras “cositas más”, na rua camélia 16, bairro Santo Expedito, hoje bairro sagrada família. Nessas minhas muitas idas e vinda para visita-lo, sempre flagrava cenas muito hilárias: - certa feita, ao chegar inesperadamente, encontrei a tribo toda, inclusive meu velho, reunida na sala de visita, a gargalhar despudoradamente. Então, perguntei-lhes:
- Por que tanta algazarra gente?
Depois, de muitos tapas e beijos de cumprimentos inúmeros, meu irmão mais novo me contou o motivo:
- É que, ao eu passar diante do ventilador que refrescava nosso pai, soltei um pum bem fedido, e a catinga foi direto ao seu nariz, e ele pensou que tivesse sido meu amigo que estava sentado à sua esquerda, e voltando-se para o menino, disse-lhe em alto e bom som:
- Tu tá podre!
Então, soltei uma gargalhada espalhafatosa e disse a meu irmão:
- Etá Guilherme, quando é que você irá deixar de fazer estas patifarias?
D`outra feita, meu ônibus não sei porquê, se antecipou ao horário previsto para sua chegada à Montes Claros. Destarte, tal fenômeno me  possibilitou flagrar uma belíssima cena em que a alegria de viver era protagonizada pelo meu velho pai.
Ainda sonolento, vez que não durmo quando estou viajando, não percebi, de imediato, que um taxi, trazendo meu velho para seu casebre, adiantara-se, ao meu, em entrar no amplo pátio da frente de nossa casa muito engraçada. Surpreendi-me, sobremaneira, ao perceber que o velho querido decera  do taxi sozinho e aos berros:
- Sou índio!
-Ha ha há...
- Sou índio!
Aproximei-me, dele, sorrateiramente, e perguntei-lhe:
- Posso saber o porquê de tamanha euforia?
Ele olhou-me sorridente, abraçou-me...
E disse-me apenas: - Sou índio!
Eu perdia-me em curiosidades. Mas tive que esperar que “Mãe menininha do nosso casebre” acordasse lá por volta das 19, 00 hs, para que ela me relatasse o motivo de tamanha euforia do nosso amado velho.
Confesso que o bendito mantra paterno – “eu sou índio!” -  martelou-me  a mente durante o transcorrer do dia inteirinho, e transformou a espera da noite num verdadeiro tormento, vez que cabia a mim conter a voraz curiosidade que em mim pululava sedenta. 
Enfim, a noite chegara trazendo consigo a elucidação do bendito mantra do meu velho querido:
-Eu sou índio!
Tal mantra significaria um grito de vitoria:
Tive, num motel da Ponte Branca, uma excelente performance jovial.
Ah! Meu querido velho era muito matreiro mesmo!
Bom... o negocio é caciquear, porque filho de índio é curumim! 
Durmam com está!

Montes Claros, (MG), 14-01-2015
RELMendes

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Há algo em comum... entre o pequi e o sertanejo!



-Há tempos venho refletindo sobre essa assertiva aí:
- O que será que eles têm em comum?

-Ah! Eureca: - os espinhos... Ara!
-Sim, é verdade:
- O pequi os esconde sob sua poupa dourada e saborosa!
- O sertanejo os esconde sob seus sorrisos fartos
E sua aparente ingenuidade!
- Mas, tanto o pequi quanto o sertanejo escondem seus espinhos
Com imensa maestria! 
Vejamos, agora, no recado ao leitor, que dá sequencia a esta minha explanação, o passo a passo do raciocínio, do qual me utilizei para chegar a essa conclusão tão espinhosa:

Recado ao leitor:

-ATENÇÃO:
- Se quiseres saborear o delicioso pequi, sem correr o risco de teres a língua perfurada por seus terríveis e dolorosos espinhos, roa-o  superficialmente.  Não o mordas jamais!
Senão vais ver o que é bom pra tosse...
- Não d`outra forma, se te dispuseres a conviver com o ressabiado sertanejo, trate-o com delicadeza... E muita gentileza!
Senão verás o eclodir de sua terrível ira!
E tenho o dito! 
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Montes Claros (MG), 16-01-2015
RELMendes



domingo, 11 de janeiro de 2015

Quebrando paradigmas



(crônica)
 

   



Família não é um mar de rosas como se decanta por ai afora! Isto desde que o mundo é mundo, ou melhor, desde o tempo do bumba!

- Pasmem... tanto outrora quanto na atualidade, filhos e parentes consanguíneos de quaisquer espécies, ou quais outros tipos de agregados  ( com raras e belíssimas exceções ), são, infelizmente, os maiores infratores das normas legais do “Estatuto do Idoso” e da “Lei de Deus”!

Para se fazer tal afirmação, é preciso, no mínimo, ter testemunhado ou vivenciado tão lamentáveis  fatos.
Ora, isto não é tão raro quanto pensamos:

Os asilos – esgotos da sociedade – estão abarrotados de idosos abandonados por seus familiares; as salas de espera do INSS estão repletas de pranto, nelas idosos vertem copiosas lágrimas de decepção com seus filhos por terem lhes surrupiado os benefícios de suas aposentadorias ou pensões; os Cartórios de Imóveis, apesar da probidade moral de seus gestores, sempre de olhos abertos para evitar falcatruas jurídicas utilizadas por familiares de idosos ingênuos, são, indiscutivelmente, terrenos férteis para que tais artimanhas ocorram despercebidas.  Esses, e outros tantos  locais, são onde ocorrem essas lamentáveis situações que são fontes imprescindíveis para se poder colher subsídios preciosos que comporão, indubitavelmente, um dossiê de irrefutáveis provas que fortificarão muito as nossas delações.

Pois é... só sei que eu não sou o primeiro nem serei o ultimo delator de fatos tão lamentáveis. Há quem afirme, baseado nas “Sagrada Escrituras” das religiões monoteístas, que o próprio Deus foi quem primeiro delatou esses fatos tão deploráveis.
Vejamos em algumas citações bíblicas o porquê dessa afirmação: 
Conta-se que ao entardecer Deus passeava pelo jardim do Édem e sentiu falta de Abel, e pôs-se a questionar Caim:

- Caim, cadê teu irmão Abel?”
- Caim, onde está teu irmão Abel?
Ora, Caim matara Abel por inveja.
Segundo as mesmas escrituras, Jacó (Israel) roubará a primogenitura de Isaú, instigado pela mãe deles;
José, filho de Jacó, fora vendido pelos irmãos, por inveja, aos mercadores de escravos;
O Rei Davi traiu e assassinou seu melhor amigo Jônatas, para surrupiar-lhe a esposa; etc etc...
E para concluir essa retrospectiva histórica judaica-cristã, utilizar-me-ei de um alerta do Senhor Jesus que muito me faz refletir sobre tão delicado assunto: - Os piores inimigos estão dentro de nossa casa.”
( Mt 10 )
                    
Podem até dizer-me: - Mas que coisa mais antiga!
E eu vos direi no entanto que: - Nada está completamente morto nem completamente vivo,” como diria Victor Hugo, mas pulula em algum lugar da memória e vez por outra podemos  pegá-las para sabermos por  onde desliza o nosso velhaco raciocínio, tão parvo, tão esdrúxulo. Contudo, tão contestador e tão lúcido.

Então, diante de tantos alertas válidos, pra ontem e pra hoje, prefiro  andar pela vida sozinho, como diz Caio Felipe:
“Ser sozinho é como andar de bicicleta: você aprende aos poucos, encontra o equilíbrio, e vai deixando os outros pra trás.”
Em face de tamanhas maldades relatadas por idosos em toda a espécie de mídia na atualidade, é preciso que se bote a boca no trombone! 

Monte Claros (MG), 11-01-2015
RELMendes