segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Juntando retalhos de saudade...





Saudade do incandescente pôr do sol
Que, logo após completar seu escondimento,
Perrmitia a olhos curiosos vislumbrar
O infinito firmamento
   (pontilhado de reluzentes estrelas),
Esbanjar generoso
O seu inenarrável encantamento...

Saudade do luar prateado
Que enluarava os verdes mares,
E das alvas areias finas da praia
Onde ondas apaixonadas
   ( uma após outra)
Derramavam-se alegres
E em repetida sequência...

Saudade da água fresca da quartinha,
  (num sombreado canto da casa colocada)
Saudade da varanda caiada de branco,
Saudade da rede puída pela maresia,
Balançando... balançando...
Ao sabor do forte vento...

Saudade de me aboletar numa delas
Só pra ouvir, bem de pertinho,
O barulho do quebrar das ondas
A bordar na areia rendas de labirinto
Com suas brancas espumas abundantes
Lá na bela enseada do mar indolente
De Jericoacoara...

Saudade de mergulhar no Timbó
  (riacho fresco de águas cristalinas)
Que a sussurrar cortava as terras ressequidas
Do sitio de meus avos maternos:
A bela cabocla Elvira, mulher do galego João Gomes
De vivos olhos azuis reluzentes.
Ah! O Timbó era um riacho tão lindo.
 Nele corria muita água fresca
 E, às suas margens,
 Bastante flor nascia...

Saudade de comer pitu,
  (um baita camarão de água doce)
Que (com peneira)
Lá acolá, no dito riacho,
Muitos se podiam pegar!

Saudade da mesa posta,
Repleta de saborosas iguarias
Que só de se olhar de soslaio,
Prestes nos dispúnhamos a consumar
O terrível pecado da gastrimargia:

Peixe assado na brasa,
Recheado de lagostas e queijo coalho;                  
Salada arretada: legumes, verduras,
Rapadura e até cocada;
Caju cristalizado ou em calda;
Banana seca e sapoti;
Buchada, frango à cabidela,
Bolo de carimã, pé de moleque
Ou grude de castanha de caju
Como lá se chama;
Macacheira cozida e tapioca besuntada   
De manteiga derretida;
  (Claro, depois de desengarrafada!)
Tudo ali
(bem pertinho a se ofertar)
Para num piscar de olhos
Ser degustado                 
Por um bando eufórico
De alegres esfomeados...  

Arre égua!
Só me falta agora sentir saudade
De engolir uma bilha cheinha
De cajuína fresquinha
Pra saciar-me a sede
  (do meu quase maluco desejo)
De voltar ligeiro pro Ceará dos meus sonhos,
  (ainda que seja no lombo dum jegue)
Porque é a terra onde está meu aconchego,
E que, neste exato momento
Do meu poético desvario,
Oferta-me:
O colo generoso como regaço,
Os braços abertos de pura alegria,
E os macios seios ensolarados da terra
Pra que eu possa (certamente um dia)
Lá repousar saciado por inteiro...


Montes Claros (MG), 16-03-2012
RELMendes

domingo, 14 de outubro de 2012

Talvez a culpa seja do vento...




Em uma preguiçosa e morna tarde de verão,
Quando uma furiosa golfada de vento se lançou inesperada
Contra as vidraças das janelas da minha varanda...
E acordou-me às pressas da costumeira sesta,
(Que neste amado e robusto sertão, jamais dela se há de abrir mão!...)
O violento e inconsequente vento 
Despertou, também, em mim lembranças.

Lembranças...
Cuidadosamente escondidas,
Ou resguardadas por cortinas de ternura
Impregnadas pelo cheiro do incenso
Que a exalar abundante...
Perfumava a capela de um sagrado monastério
Durante a celebração de “Vésperas”...
(Lá nas tardes distantes de minha juventude!)

Oh, louco e inconsequente vento!
Se, sem pudonores,
Desnudaste minhas secretas lembranças,
Também, sem pudonores,
Saciaste meu guloso apetite
De querer novamente
Lambuzar-me de alegria
Ao relembrar-me
De cada um daqueles momentos,
Que ávido, saboreei, um dia!...
         
Montes Claros (MG), 24-01-2012
REL Mendes

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ôxe!... Como é “dificulitosa” a belas arribação das formosas juritis avoantes...




-Será que as avoantes graciosas
Arrolando, aos pares acasaladas
Ainda ciscam desprevenidas
À busca do seu cotidiano sustento
Que generosamente a vida e a terra
Oferecem-lhes abundantemente?!

-Será que as ternas juritis do sertão
Ainda turturinam ao se assentarem aconchegadas
Nos galhos dos arbustos da caatinga
Onde ressabiadas
Adormeciam escondidas?!...

-Será que as serenas pombas de bando
Ainda se espantam consternadas
Com a fome carcará do valente bicho homem
Que logo após o acontecer do crepúsculo
Faminto as capturam contente
Como única opção no momento pra saciar-lhe
O seu esfaimado apetite de leão faminto?!...

-Será que as pombas avoantes
Ainda se apavoram desoladas
Com a simplória ganância do bravo sertanejo
Que aos montes as engasgalham ofuscadas
Em rústicos sacos de pura juta crua
Pra depois já em petiscos transformadas
Vendê-las nos bares mercados
E bodegas tantas do sertão?!

-Será que as belas juritis
Testemunhas vivas das muitas vidas
Que abundantes
Pululam na árida caatinga do sertão
Ainda podem voar... voar tranquilas...
Rasgando o céu azul sertanejo
Para completarem assim
O belo ciclo de sua arribação?!...  

Montes Claros, 05-04-2012
RELMendes
              


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Quem será a inesquecível garota de Sacramento?





-Quem/ por acaso/ imaginou/
Que eu nunca amei alguém
- Lá no meu distante/ pretérito -
Enganou-se/ profundamente!

- Ainda ontem/ mesmo/ deliberadamente/
Resolvi passear por lá/ no meu pretérito/
E qual não fora a minha imensa /surpresa/
Ao deparar-me com a fascinante silueta
Da bela e/inesquecível/ menina-moça/
- da amada cidade de Sacramento (MG) –
Que/ lá na minha adolescência/ hoje distante /
Fora o meu primeiro amor/ verdadeiro!

- Talvez/ah/ esse amor fora /apenas/
Um belo idílio infantil/ a desabrochar/ inesperadamente/
- Ou quem sabe um lindo devaneio/ de criança/
 A florir / repentinamente/ Quem sabe?
- Ou/quiçá/ ainda/tenha sido/ tão-somente/
Um intenso amor pueril/ a fluir /discreto/
Vez que /quase tão-somente/ platônico/coisa da época/
- Ou talvez tenha sido apenas/simplesmente/
Um sagrado segredo de um rapaz-menino/ amorosíssimo/
Que/ lá em Sacramento (MG) vivenciou/prazeirosamente/
Quando ainda/ na distante infância/ já em partida!

-Mas quem será essa inesquecível garota de Sacramento (MG)?

-Ah! Isto eu não lhes direi/ jamais!Nem hoje/ nem nunca!
Pois é um segredo guardado/ a sete chaves!
Só nós três (eu/ ela e seu acordeon)
É que sabemos: - Quem ela é/ - Qual o seu nome/
- Qual o endereço de sua residência/ etc & tal!
E porquanto/ tamanho seja/ esse nosso segredo/
Tenho cá comigo que: - Nem eu/ -Nem seu acordeon/
 -Nem/ tampouco/ ela/ desejamos revelar-lhes
Tão terno segredo!

-Ora! Para mim/e para os seus/ ela era quase um bibelô/
Mas um bibelô ofegante/ de amores/ por mim/
Só não o via quem/ de invejas/ tantas/
Esgueirava/ligeiro/seus curiosos olhares/invejosos/
E / porquanto/ tamanha formosura/ ela/ a inesquecível garota/
- da amada cidade de Sacramento (MG) –
Era muito bem resguarda por três cuidadosas e espertas/ aias/
-  Da Vestina/ etc & tal –
A nos espiar/ sorrateiras e desconfiadas/à beça!
Portanto/ dificilmente/ trocávamos carícias/ mais intensa
Vez que as benditas/ aias-tias/ não me davam trela alguma/
Para que eu pudesse surrupiar/ a meu bel prazer/
- Daquele precioso/ ainda projeto/ de belíssima futura mulher –
Alguns abraços/ acochados/ e muitos beijos/ apaixonados!

- Mas/ sem pundonores algum/ confesso-lhes:
- Eu / diante dela/perdia-me/totalmente/
Em olhares/ suplicantes/ aos montes/
Em suspiros/ofegantes/ à beça/
E em delírios/ libidinosos/ aos borbotões/
Que/ por aqui/ nem ouso pensar em lhes contar/
Por nada desse mundo/ Jamais!
Todavia/ não obstante tão grande /encantamento/
- Cá entre nós/ paixão avassaladora/ mesmo! –
Hoje em dia/ nem eu/nem ela/ nem o acordeon /sabemos
O que foi feito de nós! Que pena! Que pena!

-Entretanto/ enquanto por aqui eu estiver/
Afirmo-lhes/ sem hesitar/ que não pretendo jamais/
Esquecer-me: - Nem dela/ nem de seu acordeon/
Nem/ tampouco/ da bela Sacramento/ d’outrora/
Que/ ainda hoje/ tantas saudades me traz!

RELMendes – 26/01/ 2012

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Outono, um convite a poesia...




Ah! Outono...
Aparentemente...
Uma estação cinzenta
Ora morna ora fria,
Quase sempre triste
Pura melancolia!...

Aparentemente
Aquieta-se o mundo:
Tudo parece calado,
Tudo parece morto,
Tudo parece parado.
Um silêncio profundo!
  (Esbraveja um incauto sabichão!)

Apoquentado, rápido refuta
Um atento e sábio ancião:
Ah, que tolo engano!...

No outono
Há uma intensa trama de amantes
Tanto quanto há na florida primavera.
Nele a vida também pulsa vibrante
Tanto quanto se alvoroça contente
No verão iluminado e quente:

-Árvores se desnudam das folhas;
-Ipês enfeitam de flores o seco chão;
-Tom de viola, pandeiro e zabumba,
  Há em qualquer roda de samba;
-Mulheres e homens (quase ébrios)
 Gargalham nos botecos e nos bares...
-Agora mesmo tem um tantão de mulheres
  Parindo por ai afora:
Eis ai a continuidade da espécie garantida!
Eis ai motivos de sobra pra se poetizar tudo
Por esse mundão afora!...

Ah! Também no outono
Musas e poetas polvilham o mundo inteirinho
Com muitos versos, lindas poesias e belos poemas.
E todos tecidos com delicadeza,
Bordados de alegria
E de esperança repletos...


Montes Claros (MG), 19-04-2012
RELMendes