sábado, 22 de setembro de 2012

Não se vá pra Biribiri...

(Bochicho poético entre mim

e a poeta Maria Telles)

-Veja só!
Num suspiro profundo
Desnuda-se a alma da gentil poetiza,
Que logo se expôs abusada
A nos revelar seu oculto desejo
Com um desabafo eloquente:

-Ah! Tenham por certo que
Vou-me embora pra Biribiri!
Nem que por isso pagar
Com lágrimas o preço... tenha,
Vez que meu grande desejo
É só correr atrás de lindos sonhos,
Ainda que possíveis devaneios...

-Por ser muito enxerido...ó gentil poetiza,
Vou dar-te um abusado palpite:
Não se vá pra Biribiri...
Sem antes muito refletir!
A não ser que queiras te arriscar
A sofrer de muitas
Dolorosas ausências...

-Ah! Não há porque duvidar!
Vou me embora pra Biribiri
Pois lá terei poéticas inspirações,
Alimentar-me-ei de sublimes devaneios
E por decerto tecerei muitos versos
A beira de um lindo riacho
De orvalho fresco

-Ora! Por ser eu muito metidiço
Ó gentil poetiza,
Vou dar-te, com eloquente certeza,
Um ousado e sábio alerta:
Não se vá pra Biribiri
Sem antes muito refletir!

-Pois...pra se ir embora pra Biribiri,
Tem-se que se desvencilhar
De um tantão de coisas:
-Do nicho aconchegante,
-Das tralhas amontoadas
Pelos cantos,
-Das noites barulhentas
Que escondem o silêncio
-Dos “ belos dizeres
De tantas vozes carinhosas”,
-Dos vestidos enxovalhados
Que...ao corpo,
Tão bem se ajustam,
-Das ternas lembranças
Que como flores
Foram colhidas
Com o passar do tempo
Pelo caminho...

-Enfim...se pra se partir
Pra Biribiri
De quase tudo
Abrir mão é preciso
Parece-me muito caro
O preço então cobrado...ora!

-Ah! Mas...não há nada no mundo
Que a mim possa deter-me
De ir pra Biribiri... ora!
Vez que a estrada
Que pra lá me conduz
É de pertença só minha
E o desejo de evadir-me pra lá
Tornou-se para mim...mania!

Bom! Se assim é
Pois então que se vá!
Eu entretanto
Ficarei por aqui
Chupando araticum
E roendo pequi
Ansioso a te esperar... ara!

Montes Claros (MG), 08-06-2012
RELMendes

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Do trampo ao muquifo: uma vernissage do contraditório





Nas lojas dos grandes magazines...
Nas recepções das empresas e escritórios...
Monta-se uma ridícula vernissage,
Onde se põem à mostra elegantes operárias...
Portando uma pernóstica postura de “serveuses”   
Metidas a besta!... 

Exalam perfume de grife estrangeira,
Portam, com elegância, fino lenço no pescoço,
Vestem belos tailleurs alinhados,
Calçam scarpin de salto alto,
Têm cabelos sedosos e arrumados,
Mostram unhas e pés bem cuidados,
Falam baixo, com voz doce, macia e agradável,
Concordam sempre com tudo!...
Vez por outra... a disfarçar,
Dão alguma sugestão,
Se derramando em discreta gentileza...

É essa a aladainha recorrente...
Das inúmeras obrigações impostas  
No suntuoso e refinado ambiente de trabalho,
Para manter uma falsa aparência européia,
Que ainda hoje encanta, sobremaneira,
Os contratadores de cá,
 Dos quentes trópicos brasileiros!...


Cumprida a estafante jornada de trabalho,
Desvestem-se da grotesca fantasia,
E retornam cansadas...
Ao gostoso cafofo,
Onde se esconde a realidade
De suas vidas.

Ao chegar lá:
Asseiam-se com banho de caneca...
Perfumam-se com água de cheiro de jasmim...
Vestem folgadas saias de chita estampada
Ou, simplesmente permanecem descompostas,
(Como é de preferência...) 
Matam a fome com um ligeiro mexidão
(Acocoradas perto do velho fogão)...
Arrotam sem nenhuma precaução...
Bebem água aos fartos goles...
Conversam e gargalham...
Com quem se achega...
E por fim,
Se jogam em seus leitos surrados!
Ah quem dera que fossem cobertos...
Com alvos lençóis cheirando patchouli,  
(Trazidos lá do Belém do Pará!...)

Sem se apoquentarem
Com o matraquear dos barulhentos familiares,
Adormecem estafadas...
Como se nos braços de Morfeu repousassem...
E  pasmem!...
Parecem ter sonhos maviosos...
Como se embalados fossem... 
Ao som da própria harpa de Orfeu.

Antes que um novo alvorecer se achegue
E tenham novamente...
Que se revestir de “serveuses”,
(Pra alindar a vernissage da galeria em que trabalham,)
Ressonem... ressonem.... ó belas ninfas do Brasil!...
  
Montes Claros, 19-07-2012
RELMendes


terça-feira, 18 de setembro de 2012

UM SAVEIRO DE VERSOS




-Singra, singra,sereno,
O saveiro de meus versinhos,
- nas águas caudalosas das lembrança -
Impulsionado pelos ventos da esperança
E pelo meu forte desejo.de que ele não
Soçobre ao léu,por aí afira,jamais
Vez que, por mim e, quiçá,por tantos outros,
Ele, meu saveiro de versinhos, acalentadores,
Carece muito de atracar, suavemente, lá
Na vereda de meus sonhos...poéticos,
A perambularem, muito alhures daqui!

-Ah! Deixai pois, que o saveiro de meus versinhos
Percorra o trajeto de todos corações solitários
E que depois, bólido, parta sereno
Em busca de outros corações assaz carentes,
Que a vigiarem ansiosos o horizonte, sem fim,
Ávidos, o esperam pra acalentar-lhes as dores!...

-Ó! Deixai pois, que o saveiro de meus versinhos
Resvale aqui e ali,ou em qualquer lugar do mundo,
Pra saciar e ungir...tantos corações sedentos de saber,
Com melódicas e belas estrofes poéticas, sobretudo,
Àqueles que desejam verdadeiramente,
Por elas se besuntarem por inteiro.. .

-Por fim...peço, insistentemente, aos prantos até
Deixai pois, que o saveiro de meus versinhos
- que a velejar, serenamente, num mar de ternura -
Atraque bem de mansinho,, lá pelos campos floridos
De “Capim Dourado” do “Jalapão do Tocantins”,
Onde repousam minhas recordações...
E uma saudade sem fim!...

Montes Claros (MG), 08-08-2011

RELMendes

domingo, 16 de setembro de 2012

Flores-mulheres do Araguaia distante (Mimo poético à Zélia e Ita Maia)





-Desvestido de qualquer inspiração poética
Tentei mesmo assim  aplacar de algum jeito
A ira da silenciosa musa nesse agora de mim tão arredia:
- Abri apressado a janela que dá pra minha varandinha
E pus-me a contemplar completamente encantado
A belezura de um velho pé de ipê lilás em flores
- Que da dita janela bem se podia vislumbrá-lo extasiado –
Só pra instigar de alguma maneira à tão arredia musa...

-Logo então prorrompi em ternas lembranças
Que ao fluírem borbulhantes à beça
- Como se fora um caudaloso rio -
Fizeram-me resvalar de pronto de corpo e alma
Por saudosas e deliciosas recordações sem fim:
- A decida íngreme da rua Caiubi/ em Sampa...
- A porta sempre fechada que durante anos abri...
- O apartamento aconchegante onde por anos vivi
Rodeado por graciosas flores-mulheres silvestres
E porquanto orvalhado pelo frescor inenarrável
Do belo Araguaia distante...

-Flores-mullheres  generosíssimas
Pois  sempre foram assiduamente  presentes
Em meu irrequieto caminhar à época da juventude
- Tão sem rumo nem sequer prumo algum  -
E porque sempre aos amanheceres douravam-se
De muita ternura e incontáveis gentilezas
Para tentarem acalentar-me à beça
Em meus irrequietos dias...
Plenos de utopias!

-Flores-mulheres  boníssimas
Pois sempre foram muito presentes
Em meu irrequieto caminhar tão juvenil
E também porque em todos os anoiteceres
Sob o argênteo clarão do raríssimo luar de Sampa
Elas sempre se permitiam enluarar-se de alegria
Só pra alumiar-me os malvistos rastros abusados
De meus desvairados sonhos...

-Flores-mulheres amorosíssimas
- Sempre  efetivamente  presentes
Em meu irrequieto caminhar tão juvenil -
Saibam  vocês criaturas de coração lindo
Que ainda hoje e quiçá sempre quem sabe
Irão perfumar-me os dias de saudades tantas...

-Ah minhas amadas flores-mulheres silvestres
Do belo Araguaia distante... Quanta beleza!
Quanta saudade desescondida!

RELMendes – 04/07/2010